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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

RECANTO DOS ANJOS

         O que faço eu menino quando chega o natal e vejo que te foste trazendo pra mim esta sensação inversa de orfandade?
         Meninos e meninas não deveriam morrer nunca deixando seus pais em desespero...
         Quando passa dor, agora abrandada, olho para a casa do vizinho e vejo seu filho destruindo a família (por causa das drogas – isto sai nos jornais toda hora). Muitas vezes a família se esfacela aos poucos daí então pude entender que a vida é sábia. Que a vida já tem seu destino traçado, mesmo antes de ser concebida. É neste momento que percebo que nada acontece por acaso. Tudo tem um objetivo e tua volta Daniel ao “Recanto dos Anjos” tinha uma razão de ser.
        O que faço com este menino que veio agora, que foi para a favela, que a mãe é drogada e o pai não quer nada com o trabalho e não o sustenta (será que este pai teve a leve lavada por sua religião evangélica?).
        O que eu faço com estes anjos de olhos azuis, balançando o seu corpo e o meu equilíbrio? Será que só espera crescer para consumir as drogas que sua mãe irresponsável consumia enquanto o tinha no ventre?
         Eu queria respostas Daniel. Agora que voltaste ao Recanto dos Anjos poderias me ajudar a responder...
         Balanço somente... Na minha cadeira enquanto tu balanças teu corpo, sem nenhuma rede de proteção. O que faço? Balanço somente...
         E neste balanço descubro que todos os anjos têm uma missão. Algumas vezes é até possível que não a entendamos, mas existe sempre um recado e muita gente é afetada para cumprir estas missões em conjunto...
         O que faço com os meus princípios de não querer interferir no destino das pessoas? Como posso ver almas se desgarrando e não fazer nada? Não consigo ficar incógnito! Não consigo ficar sentado vendo a vida passar.
        Às vezes me pergunto o que posso eu ter feito para ter que pagar nesta vida preço tão alto?
        Mas voltando aos meninos abandonados... Muitos destes têm seus destinos atrelados ao nosso e pedem o nosso amparo, depende da nossa boa vontade e disposição. Isto às vezes só depende do fato de abrir os braços e ampará-los e eu espero ter condições físicas, financeiras e emocionais para continuar fazendo, sem nenhum propósito de santidade.
       É cruel ver crianças abandonadas por pais irresponsáveis que não conseguem organizar suas vidas, desorganizando e desestruturando outras, usando sempre a maternidade ou paternidade como moeda de troca...
       Poderia parecer preconceito, mas não é, no entanto vejo que há muita gente “pobre” (no sentido mais amplo da palavra) que usa seus filhos para sobreviver, para ter um companheiro, para atrair a dó dos outros e até como instrumento de angariar recursos. Antigamente fazia-se isto para ganhar o salário família, hoje para ter o bolsa escola. Outros fazem isto para ganhar pensão, outros os usam para “olhar” carros. Alguns os usam até na prostituição infantil. É cruel, mas parece que não fugiram só os anjos do céu... tenho a impressão que os anjos do inferno também estão à solta...
        No entanto fico sem saber como identifica-los? Será que todas as crianças e adolescentes com armas na mão assaltando, vendendo drogas e matando são anjos do céu que caíram em braços errados e não tiveram escolhas? Tudo é muito difícil! Tudo virou caos numa sociedade que beira o apocalipse...
         O que fazemos nós que tivemos outras escolhas e opções, mas que não podemos sozinhos remar contra a fúria de um rio caudaloso, em época de tempestades? Um único barco não pode salvar tantas vidas... Será que uma carga pesada demais também não poderá afundar a todos?
         Eu já não sei mais o que fazer. Meus braços doem e meus remos já não conseguem ir contra a correnteza. Espero que a “Força Suprema do Nosso Criador” possa dar-nos fé, coragem e estímulo para continuar e que os desafios possam ser superados. Que nós possamos reconhecer os anjos que merecem ajuda.
        Que nós que perdemos nossos anjos possamos ajudar para que outros não se percam de forma tão cruel... ou para as drogas.

Mário Feijó
23.12.09

Comentário: Esta crônica surgiu em função de eu ter perdido um filho atropelado há 25 anos e o outro que ficou, hoje é pai de filhos de três mães diferentes, as meninas eu estou criando, os meninos de nove meses e de tres anos estão com uma mãe que é drogada e os deixa na favela... Sem condições de serem criados para a avó, estou pleiteando a tutela deles, pois o pai não trabalha para sustentá-los... Chega... chega não quero mais pensar nisto e envolvê-los em meus problemas, meu objetivo mesmo é que façam uma reflexão pois o que mais existem são casos assim, por aí...
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