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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

AQUELES OLHOS VERDES


AQUELES OLHOS VERDES

 

        Franzino, sardento, cabelos cortados no estilo, soldado raso, calças curtas, não tinha ainda dez anos aquele menino, mas desde criança era diferente dos outros da sua escola.

        A timidez o denunciava e sofria discriminação pelo perfil completo, para agravar ainda era pobre, o desgraçado.

        Não entendia o porquê da discriminação, mas cada brincadeira de mau gosto, cada piada era como uma punhalada...

        Nunca praticara uma ação maldosa para com os demais, afastara-se dos esportes para não ser gozado pelos outros, e isto também acabou sendo discriminatório. No entanto no seu caminho apareceram meninos e meninas malvados que o maltratavam, inclusive fisicamente. Um dia reagiu, brigou, mas até hoje não lembra o que aconteceu durante a briga, nem como chegou em casa, mas todo o seu material sumiu. Ele teve um branco na briga que manteve com o menino negro.

        E para completar seu pai também o surrava todos os dias...

        Muitos foram os que lhe machucaram na infância. Um dia quando brincavam de correr e pega-pega, uma menina se escondeu para puxar um fio de arame farpado em seu rosto que por pouco não o cegou... feridas foram muitas, tanto física quanto emocionalmente. Ficaram cicatrizes que o tempo apagou no corpo, na alma elas ainda sangram... afinal quem se incomodaria com aquele rapazinho magricela, sardento e horroroso?

        E o menino foi crescendo. Superando todas as adversidades. Nos primeiros anos do ensino básico acabou se formando em primeiro lugar, na sua escola. Não virou ídolo. Continuou um adolescente, sem graça, magro, feio e pobre.

        Seu primeiro drama de adolescente era tentar entender o por que daquela rejeição. As mulheres o rejeitavam porque era doce e amável, e os homens “não podem” ser doces. Os homens o rejeitavam porque não representava perigo com as mulheres (na opinião deles). Assim sendo ele queria ser um daqueles homens para ser admirado pelas mulheres e respeitado pelos homens. Sua alma não era assim e ele continuou do jeito que era, mas conseguiu conquistar um espaço.

        Havia uma vantagem naquele menino: seus olhos verdes. Não que ele se importasse com isto, mas os outros sim. Achavam seus olhos lindos. E o menino começou a concentrar sua energia e sua força neles, no seu olhar.

        Tornou-se homem. Ganhou muitas mulheres, mas tinha medo de amar, não queria ser traído pela vida. Não acreditava que pudesse ser amado.

        Passou a ser autêntico, sem se importar com a opinião dos outros. Continuava a ser discriminado, julgado.

        Um dia casou-se, teve filhos. Amou e foi amado, mas jamais foi feliz e aqueles olhos verdes continuaram acesos como dois faróis de esperança que o conduzem na busca de um amor sincero...

 

Mário Feijó
30.08.12
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