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sábado, 21 de dezembro de 2013

OS BONS TEMPOS DE CRIANÇA



OS BONS TEMPOS DE CRIANÇA NA ANTIGA FLORIANÓPOLIS

Eu lembro, com saudades, dos meus tempos de menino. Isto não faz muito tempo. Porém o tempo anda correndo demais, feito os carros da metrópole que se tornou a minha cidade, até bem pouco tempo uma pequenina e agradável cidade, onde as praias, hoje famosas até fora do Brasil, eram pequenas vilas de pescadores.
Florianópolis era assim, uma pequena e pacata cidade. Ontem no trânsito eu me senti nas ruas de Bombaim (Índia) mesmo sem nunca ter saído daqui pra muito longe.


















A cidade de Florianópolis continua linda, mas devido ao grande número de pessoas do Brasil e do exterior que a descobriram ela ficou terrível. Está muito estressante andar motorizado nas ruas da cidade. E andar a pé parece ter perdido o encanto. Não se conhece mais ninguém. As figuras típicas da cidade desapareceram. O “Ponto Chic” não é mais o mesmo, virou Senadinho. A Felipe Schmidt, a Conselheiro Mafra e a Tenente Silveira viraram um aglomerado de gente desconhecida e com pressa.
A Praça XV de Novembro, tendo em vista a preservação da figueira, com quase 300 anos, e o cuidado com os jardins tem seu ar de mistério preservado agora atrás do Presépio criado por Franklim Cascaes e recriado pelo Peninha. Eu lembro ainda dos tempos em que o carnaval ocorria ali ao redor da praça. Dos carros alegóricos dos Tenentes do Diabo e da Granadeiros da Ilha e da eterna disputa entre a Copa Lord e Protegidos da Princesa, com a Escola Filhos do Continente só fazendo figuração, pois a disputa era sempre as duas primeiras.
Eu lembro, ainda, de embarcar numa charrete, ali na praça, em frente à Padaria Foguinho para ir ao Hospital de Caridade, aquela ladeira parecida conduzir ao céu. Senão pelo medo de ir para o Hospital e morrer ou pelo cansaço, que parecia deixar a gente sem fôlego.
Hoje tudo pode ser romântico, mas naquela época era encantador e eu me sentia assim: en-can-ta-do! Lembro até hoje o tom da emoção sentida.
Agora a gente não lembra mais de coisas que possam causar tais sentimentos. O progresso foi arrasador, acabou com aquela poesia viva que nem precisava ser escrita. Estava ali: no mar batendo no fundo do Mercado Público, transparente e cheio de peixinhos; na pedra dentro do mar com um cone vermelho em cima, para os barcos não baterem, ali perto onde está a Rodoviária Rita Maria; no mar que batia nas laterais do Mirante do Miramar, sim porque eu nunca fui lá atrás do Miramar, parecia ser tão longe e tinha medo.
Como era boa esta época, onde no verão, saiamos a pé para tomar banho de mar na praia da Saudade ou para pescar siris, com fachos de borracha, feitos com pneus velhos de carro.
Este encantamento ainda existe, mas fugiu para algumas praias mais distantes, como Lagoinha do Leste e Pinheira (uma na ilha outra no município de Palhoça, dentro da Grande Florianópolis).
Florianópolis está caótica e não vejo preocupações políticas ou sociais que melhorem este quadro. Uma tentativa linda de resgate é o Presépio da Praça XV de Novembro e a decoração natalina. Parabéns aos organizadores por isto.
Tenho medo da cidade daqui a alguns anos. É assustador querer ir a uma praia (e são tantas e tão belas como Lagoinha e Praia Brava que nem tinha ouvido falar quando criança), estas na época eram tão nativas e agrestes, agora viraram belos e sofisticados Balneários (Brava, Santinho, Jurerê Internacional, Lagoa da Conceição).
Adorávamos fazer piqueniques em Jurerê e Canasvieiras, agora a gente não consegue chegar perto e quando chega não tem lugar para estacionar. Fazíamos piqueniques escolares ali e também em Santo Amaro da Imperatriz (com suas águas termais maravilhosas) hoje cheios de hotéis sofisticados e requintados.
Na minha infância estes lugares eram mágicos como devem ter sido Santo Amaro e Caldas para a Imperatriz Leopoldina que veio pra estas terras para se tratar.
Praticamente ninguém sabe que o Livro O Pequeno Príncipe, conhecido mundialmente foi escrito em Florianópolis, quando o então aviador Saint Exupéry teve que fazer uma aterrissagem de emergência naquela praia.
Passei pelas pontes Pedro Ivo Campos e Colombo Machado Salles, olhando para a Hercílio Luz, com suas lágrimas de luzes pensando que a ponte chora lembrando os tempos em que ela sozinha dava as mãos à ilha e ao continente, como se fossem crianças desamparadas. Os filhos cresceram e ela ficou ali como um marco, uma herança, pela qual na velhice dos pais, os filhos brigam, sem lhes darem o devido valor, pensando somente no que têm direito.
Nada melhor para alguns, quando as aparências apenas enganam, enquanto só a ponte consegue externar suas lágrimas.

Mário Feijó
21.12.13
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