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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Diário de uma ex-prostituta adolescente - cap. VII


Diário de uma ex-prostituta adolescente



Cap. VII





A VIDA SEM ENSAIOS



A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios.

Por isso cante, chore, dance, ria e viva intensamente

antes que a cortina se feche. Charles Chaplin




Daiane foi à Porto Alegre acompanhando D. Maria de Lourdes que precisava fazer uns exames médicos, no Hospital das Clínicas, como não conseguiram fazer tudo e o médico mandou repetir outros se hospedaram na cidade. À noite foram ao cinema assistir “Le Potiche”[i] com Catherine Deneuve, de quem Maria de Lourdes era fã.

        Tudo bem, tudo muito bom, mas na saída alguém grita: Daiane!

        Daiane se assusta! Quem poderia ser, ali?!!

        Era Fernando. O tal caminhoneiro que lhe trouxera do Ceará.

Eita mundinho pequeno, pensou Daiane. Aquele encontro deva-lhe um grande susto. Principalmente porque Daiane, até hoje não contara nada de sua vida à patroa e tinha medo que Fernando fosse além daquela abusiva intimidade que aparentara.

Tentou disfarçar e logo se afastou antes que o “desgraçado” arruinasse com todos os seus planos de uma vida nova e para isto precisava que seu passado ficasse enterrado lá onde estava – no nordeste.

Tudo corria tão bem para que um infeliz motorista de caminhão coloque tudo a perder.

Daiane tinha muita estória de vida que queria enterrada e bastava ressuscitar sua vida recente para que tudo viesse à tona e ela não queria lembrar o que tinha passado, desde o estupro ainda criança quando seu pai a vendeu a um fazendeiro por R$ 1.000,00 às surras que apanhou na rua (depois que fugiu do tal fazendeiro) às que apanhou dos fregueses.

Nada disto pelo que passara queria relembrar e o medo de ser descoberta a apavorava. Primeiro porque queria recomeçar a estudar e depois porque estava envolvida com os filhos da patroa e, por último porque tinha intenções de ir embora do Brasil, mais tarde.

Daiane desconversou e disse à Maria de Lourdes que a intimidade talvez fora devido ao fato de terem viajado juntos por quatro dias o que criou este clima afetivo da parte do outro, mas que Daiane não tinha nada com o rapaz.

Daiane pensou:

 “- acho que a convenci”!  Mas não iria se preocupar com isto agora e tentou puxar assunto sobre o filme, onde a mulher (Catherine Deneuve) era tratada como um troféu, um objeto decorativo dentro da sua bela mansão, sem opinião e sem direito a dar palpites. No entanto diante de um problema de saúde o marido se afasta da empresa e vai passar um tempo fora, viajando. Diante disto e enfrentando problemas na fábrica ela é obrigada a assumir a direção da mesma, que um dia já tinha pertencido a seu pai. Ela contorna todos os problemas e ainda faz a fábrica prosperar. Quando o marido volta quer o lugar de volta o que depois de uma trapaça consegue, mas a mulher não era mais a mesma, lança-se candidata à prefeitura local e vence. Portanto dando uma guinada em sua vida...

Daiane pensou é isto o que eu quero fazer com a minha vida. Dar uma guinada sem ensaios, sem deixar de sorrir, cantar, dançar, amar e viver, enfim ter uma vida e não apenas um projeto como se fosse um filme e isto é real – vou conseguir! Pensou Daiane, sorrindo pra si mesma...
 

Mário Feijó

 


[i] Potiche la brillante commedia di François Ozon con Catherine Deneuve, Gérard Depardieu e Fabrice Luchini.
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