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quarta-feira, 18 de junho de 2014

CRIMES EM SÉRIE



CRIMES EM SÉRIE

Vitor Albuquerque era o homem por quem Aimée Lins e Silva sempre fora apaixonada desde a adolescência.
Ela sempre fora bela, fina e requintada. Tivera uma educação no melhor colégio de freiras da região e depois fora mandada para a capital, onde fez seus estudos básicos complementares. Não fez faculdade porque o pai achara que mulher não precisava e ele precisava da sua ajuda na fazenda. Depois foi se envolvendo na administração dos negócios e ficara restrita à Fazenda Santa Clara, na pequena cidade de Santa Clara do Oeste, no interior de São Paulo.
Vitor era filho do fazendeiro vizinho das terras de seu pai. Era o homem mais belo que já vira e desde que se conhecia por gente, sempre fora apaixonada por ele.
Vitor Albuquerque tinha uma pele morena, num tom que parecia bronzeada; 1,87cm de altura, corpo atlético; olhos esverdeados e uma vasta cabeleira negra.
Ele também parecia apaixonado por ela, nas vezes em que se encontravam e faziam amor, porém ele sempre fugia quando o assunto era casamento.
Aimée era uma moça linda, pele clara, tinha os cabelos ondulados, sempre amarrados por fitas coloridas ou lenços multicores. No inicio ela reclamava, mas com o passar do tempo acostumara-se com o pouco que recebia dele e passou a não fazer mais exigências.
Os pais de ambos morreram em ocasiões e circunstâncias diferentes. E a vida continuou para ambos, como sempre fora.
A pequena cidade de Santa Clara, no entanto, começou a registrar casos de desaparecimentos de homens jovens, com idade que variavam de 20 a 35 anos. A maioria era de fora da cidade, mas todos tinham as mesmas características. Não deixavam indícios de partida, desapareciam com a roupa do corpo e alguns apareciam dizendo procurar emprego nas fazendas locais.
As pistas sempre acabavam no caminho das fazendas de café de Vitor e Aimée, ali em Santa Clara. Tinham sido 15 casos de desaparecimento registrados. Pareciam não ter ligação um com o outro, até a posse do novo delegado da cidade que começou a sentir nestes desaparecimentos algum comportamento criminoso, típico de crimes em série.
Chamou da capital um amigo seu que era detetive particular e que esporadicamente executava serviços para a polícia e, especialmente para ele.
Pedro era um homem muito bonito. Corpo atlético, quase um metro e noventa de altura. Aparência máscula e atitudes também masculinas.
O delegado orientou-o a procurar emprego, inicialmente nas duas fazendas, depois se fosse necessário estenderia sua busca para as fazendas vizinhas, mas era naquela direção que os homens desapareciam, sem deixar rastros.
Pedro foi à fazenda de Aimée que o dispensou, visto que não precisava de capataz ou administrador. Isto a fazenda já tinha e ele era um típico “papa fina”, como diziam.
Na fazenda de Vitor, Pedro recebeu uma acolhida mais “calorosa”, digamos assim. Vitor, além de se mostrar interessado assediou Pedro acintosamente, convidando-o para jantar em sua casa na noite seguinte. Tirando isto, mais nada havia de suspeito. O que tinha de mais o cara ser gay, pensou Pedro.
Na cidade, Vitor era conhecido como uma pessoa boa, discreto e nunca se soube nada sobre qualquer envolvimento dele com qualquer habitante local, além do caso que mantinha com Aimée que todos já sabiam, mas comentavam à “boca pequena”. O que ninguém sabia era que Vitor era bissexual. Mantinha seu relacionamento esporádico com Aimée e com frequência viajava para outras cidades à “negócios” e lá mantinha relacionamentos com outros homens, sem nunca ter se envolvido seriamente com nenhum deles.
Alguns descobriam seu paradeiro e apareciam na fazenda “pedindo” emprego. Nestes casos eles não podiam voltar e destruir a vida de Vitor, tão bem urdida nestes seus 45 anos de existência.
Os que por ali apareciam, por ali ficavam. Vitor até os recebia e dava-lhes abrigo. Convidava-os para um jantar especial, levava-os para o quarto e depois sem roupas iam passear em um caramanchão fechado, corredor escuro, cercado de buganvílias que davam para o canil. Nenhum dos que por ali entravam tinham esta informação. Aí com uma desculpa qualquer Vitor sumia, abria o canil e soltava seis cães ferozes que mantinha sem alimento, algumas vezes por mais de dois dias seguidos. Nada restava dos visitantes, além das roupas que eram cuidadosamente incineradas na fornalha da fazenda.
Isto se repetiu nos últimos 20 anos. Vitor lembrava-se da primeira vez que vira seu pai fazer isto com inimigos e vadias que lhe atormentavam. Nunca fora descoberto até o dia em que o marido de uma delas tirou-lhe a vida em uma emboscada.
Vitor utilizou-se da mesma receita e fazia isto com seus amantes que por ventura lhe chantageassem ou lhe incomodassem. Ele se sentia poderoso, um deus, diante da vida e da morte. E tinha um prazer sádico em ouvir os gritos de dor e desespero de suas vítimas.
Tudo era sempre muito bem planejado. Todos os empregados da casa tinham folga naquela noite e suas vítimas podiam gritar à vontade, sem que fossem ouvidas. Não restava uma gota de sangue naquela área, ainda mais que ela já era preparada com canos de água próprios para que se fizesse a limpeza das sujeiras dos animais. Não restavam quaisquer sinais suspeitos.
Foram 27 homens que desapareceram. Somente 15 a cidade tomou conhecimento, os demais foram trazidos por ele, ou vieram procurando-o e alguns nem se registravam na cidade.
Pedro resolvera aceitar o convite para jantar, em parte porque sentira-se atraído por Vitor, e, em parte porque era seu objetivo elucidar o caso dos desaparecimentos, por tanto tempo desconsiderado na cidade.
Vitor fora encantador. A noite transcorrera sem problemas, só que pela primeira vez Vitor estava apaixonado por alguém e isto o fez cometer alguns deslizes. Pedro percebera no amante uma mente doentia e possessiva e começou a ficar atento em relação a tudo. Primeiro tivera o cuidado de também não se apaixonar. Levaria o caso como “trabalho”. Havia um certo prazer na relação, mas ele tinha uma missão e o outro não parecia ser uma pessoa normal, com o passar do tempo. Todo cuidado era pouco para que sua missão tivesse sucesso. Ele sentia que o nó se desataria a partir de Vitor.
Pedro conseguiu colocar escutas, na sala e no quarto de Vitor e foi a partir daí que teve as primeiras pistas.
Um dia na delegacia, ouvindo algumas fitas, Vitor dizia furioso em seu quarto “se ele continuar a escorregar de minhas mãos, não pertencerá a mais ninguém, terá o mesmo fim dos outros infelizes”.
Isto foi o suficiente para que conseguissem com um juiz autorização para uma busca mais criteriosa, na sede da fazenda e autorizassem a prisão temporária de Vitor. Mas Pedro quis antes disso testar e arrancar uma confissão mais direta do outro. Sabia agora que lidava com uma mente criminosa e que corria riscos, mas de antemão tratou de averiguar se havia armas na casa.
Certa noite marcou um novo jantar e levou duas garrafas do melhor vinho que conhecia. Fez perguntas e Vitor acabou confessando seus crimes, como se fossem troféus invisíveis. Ele não sabia que Pedro trabalhava para a polícia, nem que estava sob suspeita. Reclamava da falta de entrega de Pedro. Disse sentir ciúmes e que estava sem alternativas em relação a ele. Pedro era o primeiro a quem ele contava seu destino, e o que fizera com outros, ele já tinha se assegurando disto colocando um sonífero na bebida e quando Pedro descobrira isto era tarde demais para qualquer reação.
Tirou toda a roupa de Pedro e todos os seus pertences, relatando o que faria em seguida. Só que Vitor não sabia que estava sendo monitorado por escutas e antes de executar o seu plano macabro o delegado arrombou a porta da casa e entrou com toda a sua equipe prendendo Vitor que parecia ter surtado de vez. Sem armas e sem outra reação porque as armas que ele usava eram seus cães famintos que ainda estavam presos no canil.

Mário Feijó
18.06.14
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