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quarta-feira, 20 de julho de 2016

BRUMAS DO INVERNO (Cap. final)

BRUMAS DO INVERNO
Estávamos no mês de junho quando o inverno (aqui no hemisfério sul) solta suas brumas através de um vento gelado. Nas ruas as pessoas andavam encolhidas, úmidas e apressadas.
Joana era apenas uma menina, com seus sete anos. Fugira de casa, pois o pai, bêbado, batia-lhe todos os dias e a mãe submissa não intercedia. Algumas vezes até tentara lhe molestar. Era melhor viver nas ruas do que ter uma vida daquelas...
14.07.16
Joana dormia agora nas ruas da cidade. Brincava com pombos na praça. Tinha liberdade, não tinha mais amor. Aliás, amor era a única coisa que Joana jamais conhecera.
Volta e meia ganhava uma moeda. Já conhecia todos os recantos da cidade. Não tinha luxos. Comia tudo que achava nos lixos da cidade. Afinal de contas, os ratos não sobreviviam? Mas Joana não tinha capacidade nem para raciocinar sobre isto. No entanto no mundo dos bichos ela era apenas mais um deles.
Enquanto tinha inocência, Joana era inocente, mas a vida mostrava a Joana que a inocência é um elemento que tem que ser superado quando pensamos em sobrevivência. E Joana começara a ser esperta, feito um rato que foge do gato que quer lhe abocanhar ...
16.07.16
Dormia onde conseguia se esconder, entre construções ou em locais abandonados. Quando era verão isto não era problema, mas quando o inverno chegava era mais duro achar um abrigo. Começou a se misturar com mendigos de rua. No início a maioria lhe protegia e dava guarida. Pegou sarna dos cachorros e piolho das pessoas.
Um dia uma senhora da cidade ofereceu-se para ajudá-la. Chamou-a para morar em sua casa como se fora sua filha. Parecia uma boa oportunidade, foi. No entanto a “mãe” passou a aproveitá-la nos serviços domésticos e com o passar do tempo ela virou empregada da casa, sem amor e sem salário, mas não queria voltar para as ruas então se sujeitou à “escravidão”. Com o passar dos anos não havia mais amor entre elas e a “mãe” mostrou-se quase cruel.
Sem estudar e com dificuldades em se relacionar com as pessoas, um dia ela resolvera fugir novamente. Estava agora com 15 anos. Foi para a cidade grande. Agora estava na capital. Procurou emprego e achou um de doméstica para dormir no emprego. Tentou várias vezes voltar a estudar. Ia um a dois meses e não conseguia acompanhar, além do que sentia vergonha por estar aprendendo a escrever somente com 15 anos. Na escola noturna arrumou um namorado e por carência de amor entregou-se a ele na primeira oportunidade. Engravidou. Ele não sumira, ficara por perto e quando chegou a hora do bebê nascer foi para a casa da “mãe” que um mês depois a mandou voltar ao trabalho.
- O bebê fica aqui. E o namorado também ficou. Apaixonou-se pela “mãe” e um ano depois nascia mais um bebê. O seu antigo namorado torna-se seu “padrastro”.
Joana continuava trabalhando na casa onde antes trabalhava.
Passaram-se mais alguns anos e Joana arrumara outro namorado. Engravidara novamente. Quando chegou a hora do bebê nascer voltou “contrafeita” à casa da “mãe” que um mês depois a mandara voltar ao trabalho...
- O bebê fica! Era uma menina agora.
Seu primeiro filho aprendera a lhe chamar de “tia” e só depois de adulto descobrira que a “tia” na realidade era sua mãe verdadeira. A irmã também aprendera a chamar a mãe de “tia” e nunca a aceitou como mãe. Não compreendia aquele abandono. E realmente, tudo era muito mal explicado. A ignorância e a submissão nunca deixaram aquela mãe lutar por seus filhos.
Pensava ela, “de que adianta eu lutar por meus filhos, se não tenho onde, nem como criá-los”.
O tempo passou e Joana nunca conseguiu o amor de seus filhos. Eles não lhe perdoam. Ela sofre... a “mãe” agora já morreu, mas nunca foi uma mãe para seus filhos. Criou-os como se fossem serviçais. E nunca lhes deu amor. Acabara sozinha com uma doença terminal que pouco a pouco lhe destruiu o corpo. A alma não se sabe se foi redimida ou se pena nos umbrais do inferno.
Joana foi envelhecendo. O coração partido sofria sem o amor dos filhos. Tinha consciência de que não deu amor, porque nunca aprendera a amar.
Com quase trinta anos arrumara um namorado que lhe oferecera uma pequena morada, numa vila distante. Fora morar com ele, mas continuava doméstica no emprego de quinze anos.
Um ano depois...
18.07.16
O DESTINO DOS FILHOS
Bem, um ano depois Joana já estava envolvida em outras tramas. Sua vida era uma continua tentativa de acertos. Por não ser muito inteligente ela não pensava nas dores que poderia estar causando a seus filhos com a sua acomodação em deixá-los com a “mãe”. Acreditava que lá eles tinham um lar e amor.
Sentia-se feliz com João. Com ele agora tinha um filho e uma casinha simples, numa vila distante da grande cidade. Tentara trazer os outros filhos para junto de si, mas a “mãe” não deixara. Ela não era forte o bastante para brigar. Continuou “tia” dos próprios filhos. Não dormia mais no emprego, nem tentara mais voltar a estudar.
Durante o dia deixava o filho que tivera com João com uma vizinha, a quem ajudava. Não pagava porque já ganhava pouco também.
O tempo passava célere e a vida de Joana ficou menos corrida. Seu marido trabalhava como zelador em um prédio, num bairro da periferia daquela grande cidade. Dormia em casa todos os dias, e, se não fosse pelos filhos que deixara com a “mãe” ela podia dizer que era feliz.
Um dia bateram em sua porta seus filhos mais velhos. O menino tinha 17 anos, a menina 15. Queriam morar com ela, pois era a única parente mais próxima, a “tia”. Joana resolvera contar-lhes a verdade. Pessoa simples, não sabe contar histórias, não soube explicar seus sentimentos, nem seu abandono, nem o abandono que causara. Os adolescentes revoltados fugiram de sua casa, antes mesmo que ela argumentasse melhor. Não queriam mais saber dela. Saíram dali dizendo que a odiavam.
Joaquim vivera nas ruas por alguns meses até que um antigo colega de escola, cabeleireiro agora lhe convidara para morar juntos. Aceitou e passou a trabalhar num posto de gasolina. A menina, Marina, tornara-se prostituta e vivia bêbada e drogada. Joana sofria com aquilo, porém nada fazia. Nada sabia fazer para solucionar o problema. Começara a adoecer e antes mesmo que tudo aquilo terminasse suas entranhas começaram a ser devoradas por um câncer que a matou em pouco tempo.
O filho mais velho agora estuda. Está com 30 anos. Quer ser advogado. Marina fugiu com um cafetão e ninguém mais soube sobre ela. O terceiro filho tem 13 anos e mora com o pai e uma nova mulher que este arrumou.
A vida algumas vezes faz com que pensemos que somos os únicos quem sofre. Mas tudo o que fazemos tem consequências sérias para nós ou para os outros.
Joana nunca teve sabedoria para compreender seu sofrimento e crescer com ele. A sua submissão criou outros dramas, mesmo quando ela não queria prejudicar ninguém. Sua busca era uma busca de amor, por amor, com amor que não aprendeu a dar, nem mesmo quando se casou, tampouco quando se tornou mulher.
20.07.16


Mário Feijó
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